Ecofogões, uma alternativa eficiente

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Rogério Carneiro de Miranda ao lado do modelo uso múltiplo do Ecofogão no Brasil.

Rogério Carneiro de Miranda ao lado do
modelo uso múltiplo do Ecofogão no Brasil.

Representante das ONGs PROLEÑA, e Árvores, Água e Gente (Trees, Water and People) no Brasil, e gerente da empresa ECOFOGÃO, Rogério Miranda é especialista em energia doméstica desde 1995. É Engenheiro Florestal com mestrado em Manejo Florestal. O ECOFOGÃO é uma tecnologia que foi desenvolvida na América Central por PROLEÑA e agora está sendo disponibilizada no Brasil através da ECOFOGÃO indústria Ltda. O objetivo principal do projeto Ecofogão é dar às pessoas à opção tecnológica de poder usar a lenha de uma forma mais moderna, mais humana, disseminando esta tecnologia no Brasil e na América Latina. Em entrevista ao Winrock, Rogério apresenta os tipos de fogões, fala sobre os impactos dos fogões a lenha tradicionais na saúde das pessoas, sobre a experiência dos Ecofogões na Nicarágua e comenta sobre a possibilidade desta tecnologia no Brasil “No Brasil estamos identificando os mercados, e estamos começando por Minas, pois lá existe uma verdadeira cultura ao fogão a lenha…”.

Quais os principais problemas dos fogões a lenha tradicionais?

Poderíamos dizer que existem dois tipos de fogões tradicionais no Brasil: o fogão de chapa, muito conhecido como fogão mineiro, com chaminé, e o fogão primitivo, ou seja, aberto, com três pedras sem chaminé. Neste último, logicamente, o problema é o exagerado primitivismo, apresentando uma baixa eficiência energética, algo entre 6 a 12%, e com emissões abertas de fumaça e fuligem no ambiente interno da casa. Já o fogão tradicional de chapa, dependendo do operador, pode produzir uma melhor eficiência energética aproximadamente entre 10 a 16%, e se estiver em perfeitas condições de manutenção e uso, reduz significativamente a emissão de fumaça dentro da casa. Entretanto em ambos os casos as panelas ainda estarão sujeitas a serem impregnadas com fuligem.

Quais os impactos destes problemas para a saúde das mulheres, crianças e outras pessoas expostas à fumaça da cozinha?

Fumaça de lenha contém, em sua maioria, partículas suspensas com diâmetro menor que 10 micrômetros, partículas tão minúsculas que são respiráveis, ou seja, penetram diretamente nos alvéolos pulmonares. Isto ocasiona irritação, infecção e até mesmo impregnação nos pulmões. As crianças, se expostas continuamente a fumaça da lenha, são muito susceptíveis a Infecções Respiratórias Agudas (IRA). Nas mulheres esta exposição também pode ocasionar Doenças Obstrutivas Pulmonares. As pessoas não percebem, mais no mundo todo são mais de 2,4 bilhões de pessoas que dependem de fogões a lenha, a maioria do tipo primitivo, o que infelizmente, segundo a Organização Mundial de saúde, leva a morte anual de quase 2 milhões de pessoas em decorrência de enfermidades originadas da infecção ocasionada pela fumaça de lenha. Ademais dos problemas já evidenciados de tuberculose e baixo peso de recém-nascidos.

Quais são as diferenças entre os fogões tradicionais e os Ecofogões? Quais as vantagens e desvantagens?

Bom, primeiramente o Ecofogão é todo fechado, lacrado, e não há contato entre a fumaça e a fuligem com o ambiente interno da casa, ou seja, não suja panelas, paredes nem a cozinheira fica exposta a fumaça. Segundo, o sistema de combustão do Ecofogão é o do “Rocket Stove”, um sistema americano muito simples de queima de lenha, e muito econômico, eficiente. Geralmente com o Ecofogão se gasta até 50% menos lenha do que um fogão tradicional. Adicionalmente o Ecofogão é portátil, se instala rapidamente, e é prático, permite cozinhar panelas grandes ou várias pequenas, além de cozinhar diretamente na chapa, seja uma carne (churrasco) ou mesmo uma deliciosa tapioca.

Modelo campestre de Ecofogão no Brasil.

Modelo campestre de Ecofogão no Brasil.

Fale um pouco sobre a experiência dos Ecofogões na Nicarágua.

Na Nicarágua foi a época do impulso a este projeto, embora tenha nascido de verdade em Honduras em 1999, depois do furacão Mitch. A idéia do Ecofogão é que quando usamos a lenha, o que realmente queremos é a energia, o calor da lenha, e não a fumaça nem a fuligem. Então desenvolvemos o Ecofogão para justamente dar esta comodidade, extrair a energia da lenha de uma forma moderna, limpa, econômica e prática, compatível com a vida no século XXI. Outro motivo importante foi o fato que descobrimos que 95% dos fogões a lenha na Nicarágua, até aquela época, eram do tipo primitivo, três pedras com alto consumo de lenha e contaminação do ar doméstico. Inicialmente com fundos da USAID – Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional – e posteriormente do Banco Mundial, um processo de industrialização e comercialização foi feito, pois era a única forma de chegar rapidamente àquelas famílias que não tinham acesso à tecnologia, ou seja, trazê-las ao século XXI em qualidade de vida e trabalho na cozinha.

A PROLEÑA instalou uma fábrica de Ecofogões na Nicarágua, como está a aceitação no mercado? E os principais desafios?

Está muito bem, mais no início sempre é difícil. O uso da lenha em fogões primitivos é feito por milhares de anos, desde que o homem descobriu o fogo, certo? Quase nunca as pessoas compram um fogão à lenha, com três pedras ou barro se pode fazer um, geralmente são pobres, menos educados academicamente e mais arraigados culturalmente. Então, introduzir-lhes uma nova tecnologia, e fazer-lhes pagar por esta, leva muito tempo de convencimento. Eu diria que no início praticamente 95% dos nossos clientes eram as ONGs que percebiam claramente esta necessidade. Aos poucos as pessoas individualmente começaram a comprar, e principalmente pequenos negócios de venda de comida, no caso da Nicarágua são tortilhas (tipo uma tapioca, mais feita de milho), feijão (existe o costume de comprar feijão cozido aos vizinhos) e nacatamales (uma pasta de milho recheada com carne e cozida em folha de banana). Hoje, quatro anos depois, as ONGs são responsáveis por 60% da demanda enquanto as pessoas individuais já compram 40% de nossa produção. Estamos felizes, pois o nosso objetivo principal de dar as pessoas à opção tecnológica de pelo menos poder usar a lenha de uma forma mais moderna, mais humana, está a cada dia se materializando mais.

Usuária típica de um Ecofogão na Nicarágua, para negócios domésticos de venda de comida (tortilhas e feijão)

Usuária típica de um Ecofogão na Nicarágua, para negócios
domésticos de venda de comida (tortilhas e feijão)

Quando o Ecofogão será efetivamente comercializado no Brasil?

No Brasil estamos identificando os mercados, e estamos começando por Minas, pois lá existe uma verdadeira cultura ao fogão a lenha, 45% das casas mineiras têm um fogão à lenha. Logicamente o Nordeste também nos atrai muito, sabemos que 30% da matriz energética da região é a lenha, e ademais a existência de tantas tapioqueiras que fazem uso da lenha para o seu ganha pão.